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Psicomotricidade, Motricidade Humana, Inclusão e Educação Física e Saúde Coletiva (Por Sidirley de Jesus Barreto)

Sobre o Autor

Sidirley de Jesus Barreto
Blumenau/SC - Brasil
E-mail: sidbarreto@ibest.com.br

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Motricidade Humana – Um Paradigma Emergente

Desde a década de 70 que a crise já se instalou na área da corporeidade e a mudança ocorre aos poucos, tendo alguns pensadores favorecendo a busca por uma reflexão filosófica mais aprofundada, dentre os quais podemos destacar Santin (1987) e Sérgio (1999 e 2000).

A compreensão das mudanças, atualmente, situa-se em outras esferas, mas não deixa de ser menos complexa do que no passado, temos sentido isso de perto, na caminhada pelas trilhas da Motricidade Humana, ao longo dos últimos 30anos, como profissional de Educação Física.

De acordo com Santin (1987) o homem realiza-se como unidade de ser corpóreo movido pela intencionalidade, constrói-se ao expressar-se na história e na linguagem e se expressa no trabalho e na inter-subjetividade. O autor postula, a necessidade de uma reflexão filosófica de questionamentos sobre a presença e o lugar do corpo na escola, na sociedade, na cultura e na política. Comenta ainda Santin: “Como corporeidade, o homem é movimento, é gesto, é linguagem, é presença, é expressão criativa (ibid)”.

No momento em que se questiona as taras do ter e do poder (SÉRGIO, 1999 e 2000), a omnienciência da ciência e seu paradigma cartesiano, há de se questionar também, o lugar do corpo no aprender e no reabilitar, há de se compreender que o movimento também é uma experiência muito emotiva, daí não ser correta a denominação Educação Física (TOJAL, 2004).

A Motricidade Humana enquanto um paradigma emergente (SÉRGIO, 1995, 1999 e 2000), não pode se esquivar deste questionamento, porque o corpo se faz motricidade.

A Motricidade Humana busca a explicação das condutas motoras para além do behaviorismo, do desportivismo e do psicologismo, porém englobando suas contribuições históricas e científicas (BARRETO, 2009).

O homem é inexplicável, mas suas condutas motoras, sua gestualidade, possuem toda uma intencionalidade possível de descrição, de significação. Entende-se, com Merlau-Ponty (apud SÉRGIO, 2000), que a grande contribuição da fenomenologia foi defender que a motricidade só é possível de ser aprendida globalmente, a partir da intencionalidade e da intersubjetividade, que distingue o homem dos animais ditos irracionais, facilitando desvendar o que há de oculto.

Para Sérgio (1995) o paradigma emergente caracteriza-se justamente pelo homem movimentando-se com sentido e conteúdo – o conteúdo do desejo e o sentido da transcendência. Para reforçar seu pensamento, Sérgio afirma que toda a existência do ser humano é uma sucessão de superação, de transcendência, em direção ao mais ser.

Para facilitar a compreensão do pensamento de Sérgio, que visa colocar a Motricidade Humana como um paradigma emergente, apresenta-se abaixo o que Feitosa (1994), considera como os sete tópicos principais desta nova abordagem:

  1. CORPOREIDADE – O homem é presença e espaço na história, com o corpo desde o corpo e através do corpo.
  2. MOTRICIDADE – A motricidade é a personalização, a humanização de todo o movimento humano.
  3. COMUNICAÇÃO E COOPERAÇÃO – O sentido do outro nasce da sua indispensabilidade ao meu ”estar-no-mundo”.
  4. HISTORICIDADE – A historicidade do homem consiste no fato de não poder conhecer-se, com uma análise exclusiva do presente, pois que ele vem de um “passado recordação”que o motiva e vai em direção a um “futuro-esperança”.
  5. LIBERDADE – Significa, aqui, passar do reino da necessidade ai reino da liberdade, que é reflexo e projeto de um sujeito historicamente contextualizado.
  6. NOOSFERA – Reino do espírito e da cultura, onde a especialização de vários saberes adquire o sentido da Totalidade Humana.
  7. TRANSCENDÊNCIA – O ser humano é um agir para mais ser.

Como destaca Sérgio (2000), a existência do Ser implica na sua realização. O homem é, pois, um apelo à transcendência, é um ser práxico (por praxis entendemos aqui o trabalho que transforma a realidade), que na totalidade humana, pela Motricidade a persegue. Por isto, a Motricidade Humana rejeita radicalmente a visão cartesiana e mecanicista do movimento humano (baseada meramente na anatomia, na fisiologia e na biomecânica), buscando elevá-la à condição de movimento-integração, que facilite a busca da transcendência, com base no desejo.

A Importância da Psicomotricidade no Desenvolvimento Infantil

O movimento é uma importante dimensão do desenvolvimento e da cultura humana.

Na vida intra-uterina o feto já se movimenta, mas na vida extra-uterina as crianças começam a movimentar-se, adquirindo aos poucos maior controle sobre seu próprio corpo, se apropriando cada vez mais das possibilidades de interação com o mundo (BARRETO, 2010).

Ao movimentar-se expressam sentimentos, emoções e pensamentos, aumentando o uso significativo de gestos e posturas corporais. Ao engatinhar, caminhar, correr, pular, brincar, etc, as crianças experimentam novas maneiras de usar seu corpo e seu movimento. O movimento humano, portanto, é mais que simples deslocamento no espaço, constitui-se em uma linguagem que permite as crianças agirem sobre o meio físico e atuarem sobre o ambiente humano, mobilizando as pessoas por meio de seu teor expressivo (HAAS e GARCIA, 2008).

As maneiras de andar, correr, saltar, resultam das interações sociais, são movimentos construídos em função das necessidades, interesses e possibilidades corporais humanas, presentes nas diferentes culturas em diversas épocas da história. Esses movimentos incorporam-se aos comportamentos, constituindo-se assim numa cultura corporal de movimento. Dessa forma, diferentes manifestações dessa linguagem foram surgindo (dança, jogo, brincadeiras, etc), nas quais se faz uso de vários gestos, posturas e expressões corporais com intencionalidade crescente.

A brincadeira é uma necessidade para a criança, que favorece a passagem do período sensório-motor ao lógico concreto. Por meio da brincadeira a criança começa de forma gradativa a operar mentalmente, formando categorias conceituais e relações lógicas, a partir dos símbolos e representações individuais (BARRETO, 2000).

Para que as crianças possam exercer sua capacidade de brincar é imprescindível que haja espaços seguros e diversidade nas experiências, principalmente na educação infantil. Neste sentido, é importante que o poder público favoreça espaços, onde as crianças sintam-se acolhidas e seguras, tendo coragem de se arriscar e vencer os obstáculos. Quanto mais rico e desafiador for o ambiente, mais possibilitará a ampliação do autoconhecimento e auto-estima.

Nas brincadeiras, as crianças transformam os conhecimentos que já possuíam em conceitos gerais com os quais brinca. Seus conhecimentos provêm da imitação de alguém ou de algo conhecido, de uma experiência vivida na família ou em outros ambientes. No ato de brincar a criança vai estabelecendo diferentes vínculos, necessários ao equilíbrio psicossomático.

As práticas culturais predominantes e as possibilidades de exploração oferecidas pelo meio no qual a criança vive, permitem que ela desenvolva capacidades e construa repertórios compostos de brincadeiras, que favorecem oportunidades para o desenvolvimento de habilidades motoras.

Ao executar as mais diferentes brincadeiras, a criança vai conhecendo seu corpo e dos demais, progressivamente vai formando sua imagem corporal, e, portanto, seu esquema corporal. Integrando o esquema com a imagem corporal, ela torna-se mais equilibrada em termos psicossomáticos. Pela brincadeira a criança satisfaz suas necessidades presentes à medida que aparecem e vive seu corpo no modo simbólico em relação com o mundo e com os outros.

Por isso, a criança deve ser compreendida como um ser dinâmico, que possui potencialidades e limitações. Suas múltiplas habilidades motoras são utilizadas para expansão de sua imensa energia e a brincadeira é o meio natural de desenvolvimento, comunicação e aprendizagem. Assim, a Educação Física Infantil baseada na prática psicomotora significativa, tendo por base a brincadeira, favorece a cooperação e torna a vida das crianças mais significativa, através da expressividade, da criatividade e do pensamento operativo.

A Inclusão do Profissional de Educação Física na Sáude Coletiva

A Educação Física(1), ao longo de sua história foi marcada por um caráter mecanicista, com práticas pedagógicas militaristas, automatizadas, mas prestigiada pelo paradigma cartesiano, infelizmente ainda reinante no nosso meio. Mas, a evolução da EF foi inevitável, grandes pensadores começaram a moldar uma nova visão da dimensão profissional, mais sistêmica (Cagigal, Parlebas, Le Boulch, Manuel Sérgio, etc).

A partir desse prenúncio a EF passa a ser incluída na área da saúde, como atenção primária. Dentro desta perspectiva há o entendimento de que a atividade motora é determinante para o aumento da longevidade humana, atuando de maneira eficiente e eficaz, na prevenção de várias doenças crônico-degenerativas não transmissíveis.

A falta de atividade motora sistemática (hipocinesia) possui um custo enorme para a humanidade. Uma pessoa sedentária muito provavelmente vai freqüentar mais os hospitais, realizar mais exames, mais consultas médicas, tomar remédios exageradamente durante sua existência, faltar mais ao trabalho, produzindo menos.

A maior parte do dinheiro investido na Saúde, atualidade, está sendo gasto com problemas relacionados ao sedentarismo. Esse problema não vai acabar enquanto as autoridades, não olharem com mais idoneidade para esta problemática: maus hábitos alimentares, saneamento básico, melhoria das condições laborais, lazer, etc.

A experiência dos profissionais da Residência em EF em Blumenau e posteriormente em vários locais do país indica que esta área de conhecimento pode colaborar de maneira indelével com a equipe multiprofissional em saúde, dentro dos objetivos do SUS. Assim sendo, em sentido amplo seria tarefa da EF atual, trabalhar com a saúde preventiva, ao invés da doença e a rotatividade de pessoas.

Tal objetivo poderá ser atingido através do desenvolvendo de ações concretas de promoção à saúde, de forma educativa, intervindo na forma individual, familiar ou global de compreensão da saúde, da doença e do equilíbrio psicossomático.

A EF atual integra um campo profissional de ordem organizado e legalizado, que devido ao conhecimento acumulado ao longo do tempo, a sociedade atualmente delega ao Profissional de EF o direito de transitar na esfera da Educação em Saúde. Mas para atuar de maneira eficiente e eficaz, o Profissional de EF deverá ultrapassar a herança positivista, que lhe deu certo status científico, mas o afastou de seu papel social.

Este conhecimento acumulado constitui a base para uma formação baseada em aquisição de conhecimentos gerais e principalmente específicos, comprometida com a obtenção de novos paradigmas, com o objetivo de favorecer a promoção da saúde à todas as camadas sociais, principalmente aquelas menos favorecidas em uma nação de excluídos, como é infelizmente o caso do Brasil em particular e de maneira em geral, da maioria dos países que compõem o nosso maravilhoso e querido continente sul-americano.

(1) Doravante utilizar-se-á a sigla EF toda vez que houver referência ao termo Educação Física.

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