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Educação Física e Envelhecimento Humano (Por Paulo Ernesto Antonelli)

Sobre o Autor

Paulo Ernesto Antonelli
Ouro Preto/MG - Brasil
E-mail: erpantelli@bol.com.br

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Pílulas para o Amanhã: Velho na Atualidade e a Necessidade da Renovação.

Lançando um olhar um pouco mais atencioso que objetiva procurar a localização da pessoa idosa na atualidade, a impressão que fica é que o velho ficou destituído de valores. Entretanto, verifica-se também uma certa ambigüidade nesta relação com o idoso. A pessoa idosa é desvalorizada pela sua decadência física e ao mesmo tempo, re-valorizada pela sua sabedoria. Nesse sentido, paira um desconforto na medida que, de modo geral, somente a sabedoria do idoso que é sempre mais destacada na expressiva maioria dos registros acerca da velhice. Entretanto, acredita-se que é provável a existência de outros valores que, de igual modo, podem ser evidenciados na pessoa idosa.

Nesse sentido, entende-se ser de fundamental importância re-definir e re-configurar o papel do idoso na sociedade atual. Na verdade ele percebeu o progresso e por circunstâncias diversas não acompanhou as exigências do mundo novo e ainda, porque foram raras as vezes que as oportunidades lhe foram oferecidas. Talvez continue a faltar-lhe o essencial; justamente as oportunidades. A experiência de vida diante das mudanças dos valores morais, sociais, culturais e econômicos acaba configurando o que se conhece como choque entre as gerações.

No entanto, a inversão dos valores que são concebidos pelos idosos, de fato é bastante expressiva porque a rigor, nenhum dos valores tradicionais ficou intacto nos últimos vinte anos, sendo que a mesma situação também acontece com usos e costumes. Somando nesse quadro, surge ainda a moda que diminui ainda mais a importância do ser humano frente ao processo de envelhecimento principalmente porque se vive o tempo do culto ao corpo.

Assim, cada vez mais, psicologicamente a velhice é negada, rejeitada e mascarada. Com um pouco mais de atenção pode-se perceber que até a palavra ‘velhice’ foi convertida numa espécie de tabu ao ser substituída por outras designações, como, por exemplo: terceira idade, melhor idade, quarta idade, etc. Paralelamente a tal contexto, há estudos indicando que a longevidade mesmo sendo considerada uma vitória das áreas da saúde, é um contraponto quando analisada na esfera econômica em virtude dos significativos aumentos monetários, cujo fim, é incerto. Esse raciocínio, parece mesmo ser próprio de uma sociedade onde, a pessoa é valorizada na proporção da sua capacidade de produzir bens. Quando os resultados são menores que o esperado e/ou previsto, percebe-se algo muito parecido com o que acontece com os produtos descartáveis, isto é, são interessantes até o momento que servem aos propósitos a que foram concebidos e são assim jogados no lixo. Ainda, aproveitando tal analogia, pode-se dizer que alguns produtos descartáveis continuam sendo válidos porque são reciclados, e, voltam a servir aos propósitos a que foram concebidos. Já com a pessoa idosa, nem a sua riquíssima experiência de vida pode se dizer que é valorizada. Simplesmente existirá um dia que ela será aposentada e não terá mais as obrigações laborais que sempre teve ao longo de toda a sua existência.

De sorte que o modelo de aposentadoria tal como é concebido, indubitavelmente pode ser considerado como impróprio e injusto. Na atualidade o trabalhador que se vê às proximidades da sua aposentadoria, apresenta uma atitude ambivalente. Por um lado é atraído pelo fato de não ter mais as rotinas referentes aos compromissos do trabalho, e por outro, continua a acordar no mesmo horário, não sabe mais ocupar seu tempo e energia e seus ganhos apresentam-se bastante reduzidos. Sente-se inseguro nesta etapa da vida. Raciocina com a certeza de que o melhor da vida já passou e que caiu em decadência, e, até onde se sabe, não há nenhuma proposta otimista que o faça encarar a situação de outro modo.

Não é então por acaso que as informações percebidas em jornais e na impressa falada e televisada, alertando que em boa parte do mundo geralmente as pessoas idosas encontram-se inseridas no contexto sócio-econômico dos grupos mais pobres da população, sendo que, as mulheres sofrem mais intensamente tal processo.

Incluso nesse processo da aposentadoria e da idade, entende-se no contexto social contemporâneo que há a precocidade nas reformas, o que de certo modo, contribui com o aparecimento da exploração à população idosa, mediante a oferta – amplamente difundida em forma de propaganda –, de serviços como: hotéis, bingos, produtos farmacológicos que garantem o rejuvenescimento pessoal.

Então, pode-se, ainda que tal raciocínio não seja totalmente seguro, afirmar que exista uma abordagem incorreta sobre a velhice. Parece estar claro que uma pessoa idosa não é inútil e tampouco suas qualidades e imperfeições devem ser camufladas. Assim, a principal questão de fato, pode estar condicionada no redimensionamento da integração social do idoso a começar pelo resgate dos seus valores, suas potencialidades, suas habilidades, entre outras situações também não menos importantes.

Tal raciocínio conduz a lógica em afirmar que, o envelhecimento do organismo não é e nem poderá ser, sinônimo de incapacidade.

No quadro elaborado – que também serve como reflexão – é possível verificar que as pessoas são destacadas em várias áreas do conhecimento, não havendo maior ou menor relação com esta ou aquela aptidão, o que de certo modo, pode servir como referência indicando que o ser humano vivendo a fase do processo de envelhecimento, e por isso mesmo experimentando os limites impostos pelos desgastes naturais próprios da passagem do tempo, conseguiram ser partícipes efetivos e ativos de suas sociedades contribuindo significativamente para a construção de um tempo novo.

ALGUNS DESTAQUES NA VELHICE

NOME

DISTINÇÃO

IDADE

Freidrich Von Hayek Nobel da Economia 75 anos
Luigi Einaudi Pres. Rep. Italiana 74 anos
Winston Chuchill Chefe Britânico 77 anos
Golda Meier Criação Est. De Israel 71 anos
Ronald Reagan Pres. E.U.A 70 anos
Bertrand Russel Nobel da Literatura 72 anos
Miguel de Cervantes 2ª Parte da Obra 68 anos
Tolstoi Escreveu Ressureição 77 anos
Thomas Mann A Confissão de F.Krull 80 anos
Agatha Christie Trab. Literário 85 anos
Giuseppi Verdi M. Clássica Falstaff 74 anos
Miguel Ângelo Pint. B. São Pedro 71 anos
Pablo Picasso Produziu Pinturas 92 anos
Dr. Galo Leoz Oftalmologia 110 anos

Fonte: Cabrillo e Cachofeiro / Adaptação – Antonelli (2004)

Até a próxima, e,
Um Grande abraço!

O Tempo é Inexorável!!!

O homem como tal sempre se preocupou com os problemas decorrentes do processo de envelhecimento, e parece mesmo que, a busca pelo controle do envelhecimento humano não deixa de ser um anseio legítimo. Entretanto, também na sociedade contemporânea pode-se observar que são cada vez mais crescentes as atenções com este fenômeno.

Em geral, a literatura classifica didaticamente os indivíduos acima de 60 anos como idosos, e, participantes da cognominada Terceira Idade, termo que pessoalmente não concordo. Sempre que se fala “terceira” lembro da carne de ‘pescoço’. Recentemente este marco referencial passou para 65 anos, em função principalmente da expectativa de vida e das tentativas legais do estabelecimento da idade para o início da aposentadoria, dentre outros motivos. No entanto, esta idade varia de indivíduo para indivíduo bem como na cultura onde se insere.

Caracterizar a pessoa idosa é um desafio, uma vez que a sua complexidade reside na utopia de traçar um perfil da pessoa em face de suas peculiaridades. As várias capacidades do indivíduo também envelhecem em diferentes proporções, razão porque a idade pode ser biológica, psicológica ou sociológica.

A ONU – Organização Mundial da Saúde classifica o envelhecimento em quatro estágios:

• Meia idade – 45 a 59 anos
• Idoso – 60 a 74 anos
• Ancião – 75 a 90 anos
• Velhice extrema – 90 anos em diante.

Pode-se afirmar que, a trajetória vital do ser humano, começa com a vida extra-uterina, seguindo-se, com a infância, adolescência, casamento, procriação, criação dos filhos, aposentadoria, velhice e morte, propiciando à vida conotações diversificadas e dinâmicas. Convém, porém, a adoção de uma postura transparente em relação ao ser idoso, pois parece que a tendência é estereotipá-lo segundo a faixa etária, desprezando o conceito de que cada pessoa é um ser individual e único, indivisível e que dentro de sua totalidade tem características especiais. Assim, tudo leva a crer que o âmago da questão ancorada no processo de envelhecimento do ser humano, encontra-se mesmo na busca incansável pela longevidade subtraída todas as instâncias conhecidas e próprias do acúmulo dos anos e que configura o declínio das pessoas. Esse comportamento do ser humano, já é conhecido através da mitologia grega e latina repleta de seres imortais, geralmente belos e jovens, sendo que, do mesmo modo, podem ser observadas posturas mais ou menos idênticas nos escritos bíblicos, como por exemplo, no livro do Gênesis que relata o fato após o dilúvio onde, as pessoas passaram a viver por muito mais tempo. De igual modo, ao longo da história muitos escreveram sobre as questões de viver mais, sem envelhecer. Por isso, a título de elucidação e maior clareza, pretende-se evidenciar no quadro demonstrativo abaixo, construído a partir de Santiago (1999) somente algumas situações que abordam o tema sinteticamente.

QUADRO I – REGISTROS SOBRE A VELHICE

FATO ÉPOCA AUTOR (A)
Raça Dourada Sec. VIII a.C. Hesíodo (Grécia)
Catão-o-velho  ou da Velhice 43 a. C. Cícero
1os. Trabalhos Científ. sobre a 3a. idade Séc. XVI Descartes / Bacon / R. Franklin
Estudo Clínico Sobre Senilidade e Doenças Crônicas Séc. XIX (1867) Jean Marie Charcot
Crença que a Velhice resulta da presença de Toxinas no Intestino Grosso 1845 / 1916 Elie Metchinikoff
Teoria da Dissipação do calor Interno 384-322 a. C. Aristóteles / Galeno
Utilização de Vitaminas e Hormônios para o retardamento da velhice Sec. XX Farmácia e Medicina
Transplante de Testículos de Macaco  e Carneiro no homem Séc. XX Medicina / Biologia
Mét. Quelação / Méd. Orotomolecular Séc. XX Química / Farmacologia / Medicina
Congelamento do corpo Séc. XX Medicina / Química / Biologia

Adaptação ANTONELLI (2006)

Na idade moderna, durante os séculos: XVIII e XIX, é possível perceber a melhora das condições de vida e os primeiros destaques visando consolidar os estudos objetivando aumentar a longevidade do ser humano. Porém, chega a revolução industrial e o êxodo rural o que seguramente repercute de forma muito negativa entre os anciãos, porque a família de origem rural protege seus anciãos mas, o mesmo não acontece com as famílias do mundo industrial e urbano. Por conta desses eventos, são produzidos abismos diferenciais nas classes sociais como:

• A relevância social do idoso torna-se muito reduzida;
• As classes mais abastadas financeiramente, cuidam melhor dos seus idosos;
• Reflete-se o descaso com os idosos;
• Surgem as lutas contra as enfermidades próprias da velhice;
• Começam a aparecer formas para camuflar a idade mediante a adoção de remédios, simpatias, fitoterapia e até mesmo magia.

Com o advento da gerontologia, o processo de envelhecimento adquiriu uma nova visão conceitual, considerando-se o processo de envelhecer como aquele que começa ao nascer, ou seja, do berço ao túmulo, e como um processo que varia de acordo com cada órgão, parte e sistema do corpo, de um indivíduo para o outro.

Uma vez que o envelhecimento é um processo biológico geralmente manifestado em todos os níveis de integração do organismo, desde células, órgãos e seu funcionamento, influindo no nível da personalidade e dos grupos humanos, compreensível a dificuldade de indicar um dado cronológico exclusivo para determinar a faixa etária a que pertence o idoso.

Na relação idade cronológica e o estabelecimento do início da velhice, certamente devem ser considerados fatores individuais que se agrupam, merecendo ser destacados entre eles: os morfológicos, os psicológicos, os hereditários, os culturais, os intelectuais e os raciais que são capazes de tentar abranger a velhice não como um período assustador, mas sim, como uma fase irreversível e cheia de transformações, que podem ocorrer mais cedo ou mais tarde nas pessoas alcançadas por esses aspectos.

Os indivíduos afetados por esses fatores sofrem com o correr dos anos de um efeito de decréscimo funcional em seu organismo e tal situação requer adaptações nos níveis, social, psicológico e físico em relação às circunstâncias mudadas ou em processo de mudança.

A idade cronológica, pode ser considerada como perspectiva, ou seja, varia no julgamento de indivíduo para indivíduo. Entretanto, se a ótica de análise for fisiológica, a idade é ainda muito mais variável e quase impossível de ser aferida. Para os fisiologistas, esta pode ter variação de até 30 anos em relação à cronológica. A conceituação cronológica do idoso é, portanto, apenas uma função linear de expectativa de vida.

A velhice não é um processo único, mas a soma de vários outros, distintos entre si. De qualquer modo, é preciso não esquecer que, muito pouco adiantará procurar camuflar as marcas do tempo, ele é inexorável. O recomendável é viver com plenitude e intensidade esta fase da vida humana, porque certamente, ela é a mais rica e importante ao longo da existência de cada um de nós. Finalmente, é bastante interessante sempre recordar: Você é hoje o resultado do que foi ontem!

Grande abraço para todos!

Pílulas para o Amanhã: Velhice e Sociedade uma questão a ser repensada

O entendimento que a sociedade revela sobre o processo de envelhecimento do ser humano, nem sempre pode ser considerado como mais correto e seguro. Também é provável que, a relação que se estabelece – na maioria das vezes – entre velhice os mais variados tipos de desorganizações fisiológicas possa mesmo ser questionada, uma vez que, a velhice em si, pode determinar limites como resultado da passagem do tempo, entretanto, nem por isso significa que a pessoa idosa passe a ser considerada incapaz, e/ou, destituída de aptidões diversas.

Assim, ao se propor desenvolver um trabalho com a população idosa, onde a Educação Física deve servir como uma ferramenta importante no que concerne aos princípios da manutenção e melhoria da saúde e bem estar do ser humano, é urgente que antes, seja reconhecida por parte dos profissionais da Educação Física, a necessária identificação da proficiência laboral, sobretudo, levando-se em conta que proficiência significa: o mais profundo conhecimento daquilo que se faz. Daí ser possível afirmar que, certamente não será “qualquer” programa de atividade física que poderá servir como sustentação para a intervenção profissional.

Nesse sentido, parece importante contemplar duas situações: a primeira, revestida do caráter profilático que possa atender às pessoas idosas, na medida em que, se resgate os hábitos e atitudes saudáveis – não raras às vezes esquecidos – objetivando estimular suas capacidades e aptidões como fundamental referência no contexto social, e, a segunda, oportunizar para esta população, principalmente aos idosos que por razões diversas revelam baixos níveis de condições físicas e psíquicas, ampliação dos gradientes de auto-imagem e auto-estima. Porém, no universo do envelhecimento humano encontram-se ancorados pelo menos, dois níveis comuns: a autonomia / manutenção, e, melhoria da saúde; remetidas ao extrato de vida com qualidade. Diante disso, é preciso destacar então que a Educação Física pode de fato, servir de contributo notadamente se forem observados três vieses: 1 – flexibilidade articular; 2 – melhoria e manutenção da tonicidade, e; 3 – aumento da capacidade cardiorespiratória. Na verdade, depreende-se que, essas três importantes instâncias não podem deixar de integrar e inserir-se em qualquer proposta de atividades físicas destinada às populações idosas.

Para além disso, deve-se partir do princípio de que, também é preciso atender, sobretudo, aos interesses da população idosa que, em última análise, reveste-se da real importância e necessidade de efetiva atenção, reconhecimento e respeito por parte de todos, mas, muito especialmente, dos Profissionais de Educação Física que, optaram partilhar os conhecimentos dessa área em favor da vida humana.

Nas próximas oportunidades, abordaremos outros aspectos relevantes no sentido de rever valores, aptidões e expressivas contribuições dos idosos para a sociedade vigente, e também, dos gradientes favoráveis que a Educação Física pode oferecer numa dimensão multi e transdiciplinar.

Até lá e forte abraço para todos!

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